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:: Notícias - Melhoramento sério, ovinocultura responsável “
Acabo de voltar da propriedade do Sr.Peter Black. Fiquei simplesmente impressionado com a qualidade dos animais. Mr. E Ms Black possuem 900 ovelhas Texel registradas na propriedade, e um total de mais de 10 mil animais em toda fazenda. (...) Hoje eu tive uma verdadeira aula de ovinocultura séria, responsável e lucrativa. Mr. e Ms Black ficaram abismados com as histórias brasileiras a respeito de exposições, preços absurdos e etc.”.
Este é o relato de Bruno Santos, um dos alunos do I Curso Internacional de Produção e Melhoramento de Ovinos de Corte organizado por mim em 2006. O curso contou com a participação de professores da Nova Zelândia e do Reino Unido e teve participantes de oito Estados brasileiros. Aproveitando os contatos daquela época, Bruno está passando um período na Nova Zelândia, trabalhando com o Dr. Peter Amer e convivendo com outras “feras” do melhoramento genético daquele país, e por que não dizer, do mundo?
Trata-se de um senhor de mais de oitenta anos e de sua esposa, que nasceram no meio das ovelhas. Peter é um zootecnista aposentado do AgResearch, empresa de pesquisa da Nova Zelândia. O rebanho Blackdale é o que mais coloca animais nas análises entre rebanhos na Nova Zelândia e nos testes de progênie nacionais, justamente devido ao tipo de animal que o casal produz, que é totalmente diferente da Austrália, Alemanha e Estados Unidos. Os animais são de ótima estatura, equilibrados, nem altos, nem baixinhos como os holandeses, muito próximos aos franceses, com médias de taxa de nascimento na ordem de 200%. Todos os carneiros vendidos como reprodutores são oriundos de partos duplos e triplos. Todas as borregas que são introduzidas no rebanho, todos os anos, também são oriundas de partos duplos e só permanecem no rebanho se tiverem partos duplos na primeira cria. É uma pressão de seleção talvez enorme! Neste rebanho não se usam animais altos e pernaltas, pois não suportam o severo clima. A propriedade fica no extremo Sul da Ilha Sul, onde os ventos são muito fortes e as temperaturas médias no inverno são abaixo de zero, com muita neve. Os verões são bem quentes e os animais permanecem 100% do tempo no campo. Ali, nenhum animal recebe concentrado em nenhum momento da vida.
O Texel na Nova Zelândia é muito popular e, devido a este fato, muitas linhagens foram definidas. Alguns criadores não se importam com características reprodutivas, uma vez que são considerados reprodutores terminadores, porém, criadores como o Sr. Black estão tendo muito sucesso em sua seleção criteriosa para reprodução, crescimento e qualidade de carne. Este ano, ele irá vender 800 reprodutores a preços médios de US$ 1.500,00 (equivalente a R$ 2.472,00), bem acima de média nacional! Todos os carneiros para coleta de sêmen serão reservas de seu plantel e os cordeiros de última estação de nascimento que ele manterá na fazenda.
Bruno está vivenciando aquilo que é esquecido no Brasil: uma ovinocultura séria, voltada para resultados econômicos da produção. É triste ver o quão longe está o país de alcançar tal patamar. Há pouco, a televisão mostrou mais um recorde mundial de preço pago por um carneiro, é claro, um carneiro brasileiro. A proposta aqui, no entanto, não é discutir as condições em que esses recordes são alcançados, mas o que, no Brasil, parece uma prova incontestável do sucesso da ovinocultura, lá fora parece um absurdo e é até motivo de chacota.
Muita gente critica a comparação entre Nova Zelândia e Brasil, dizendo que lá os pastos são de melhor qualidade e que por isso não é necessário fornecer concentrados e que, assim, as ovelhas conseguem criar dois cordeiros. Mas, se pensarmos nas realidades brasileiras – e elas são muitas – é possível ver que cada uma tem suas vantagens e desvantagens e que não é necessário nos fazermos de vítimas para encobrir nossa incompetência. O Brasil tem animais que sobrevivem em situações de extrema penúria de alimentos e ainda assim produzem.
Por que não selecionar, dentro dessas raças, animais mais produtivos, sem perder de vista a rusticidade? Será que alguém já parou para pensar que a ovinocultura e a caprinocultura nordestinas existem há séculos e que, na mão do sertanejo, elas são atividades economicamente viáveis? Quem ganha dinheiro com animais “de pista”, a não ser com a venda de reprodutores? Por que será que a ovinocultura praticada para esses animais não funciona para as condições de pasto? Pelo simples fato de que a genética que vem sendo selecionada não é compatível com a necessidade real do produtor.
As principais características a serem selecionadas em ovinos de corte, para as condições do mercado brasileiro são a prolificidade , a sobrevivência e o ganho de peso dos cordeiros. Isto não é um “chute”, mas resultados de estudos do valor econômico das características. Outro ponto a ser considerado é que o custo de se oferecer 100 gramas por dia de ração comercial para as ovelhas, somente nos períodos de terço final de gestação, e em três meses de lactação, mais a ração dos cordeiros (por volta de 100 gramas/dia por três meses), equivale à metade de todo o custo de alimentação. Isto, referindo-se a 100 gramas e não um quilo ou um quilo e meio, como se oferece para animais de pista.
Assim, parece que o que o Mr.Black faz é bem razoável para o Brasil: selecionar ovelhas com bom desempenho em regime de pasto, prolíficas e que cuidam também razoável a atitude dos outros produtores neozelandeses, que se preocupam em utilizar carneiros terminadores, independente das características maternas da raça. Tudo isso aponta para a seleção de raças, maternas e uso de raças paternas terminadoras. A raça Santa Inês, que é a mais numerosa, deveria estar sendo selecionada para raça materna, assim como se deveria multiplicar e selecionar raças como a Morada - Nova, Crioula, Somalis. Para imprimir ganho de peso, já existem por aí, bem selecionadas, várias raças exóticas. Mas, aqui agora, encontra-se um sonhador com uma ovinocultura organizada no Brasil. Isso é coisa de neozelandeses, de uruguaios, de franceses, de ingleses, de espanhóis, de escoceses, tudo gente sem juízo. Ajuizados são os brasileiros, que selecionam beleza e vendem caro esperanças vazias.
Octávio Rossi Morais é veterinário e pesquisador em melhoramento animal de Epamig, é criador e professor em ovinocultura.
Fonte: Revista O Berro- Junho de 2008 - N°112

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