:: Curiosidades -  Mitologia nórdica - Os Bodes de deus
 

Estava um dia maravilhoso, o poderoso deus Thor voava pelos céus em sua carruagem puxada pelos dois bodes mágicos, Tanngrisnir e Tanngnjóstr. Havia saído de uma dura peleja contra os gigantes do dia anterior e agora pensava apenas em um bom descanso em Walhala, o palácio celestial, onde iria substituir os bodes guerreiros por carneiros (condutores da carruagem nos momentos de paz) ou pela águia mágica (condutora do deus nos momentos de inspiração).

Thor estava com o deus Loki, o todo-astucioso, que inventou o próprio mal sobre a Terra e vivia lançando pessoas contra pessoas, bichos contra bichos, por diversão. Loki fazia movimentação constante com todas as coisas, tamanha era sua astúcia. Até por isso Thor gostava de Loki, pois sempre tinha novidades pela frente, nunca caindo na indolência.

Antigamente, Thor era um deus fortíssimo, mas comilão. Dizem as lendas que podia comer uma vaca inteira numa única refeição! Falastrão, não fugia de uma boa briga, principalmente se os inimigos fossem os temíveis Gigantes de Gelo, uma das criações de Loki, para atazanar a vida dos deuses.
Voltando da última batalha, Thor notava que todos observavam que ali passava o verdadeiro protetor do mundo e da comunidade. Afinal, era filho do deus supremo Odin, o qual comanda a cidade celestial (Asgard), tem por mãe a deusa Jord (Fjogyn) que protege a Terra (Midgard) por isso, Thor é muito querido e respeitado por todos os homens terrestres daquelas regiões. Para todos os lados enxergava cavalos planados, como símbolo de afeição a ele, pois o carvalho simbolizava a própria família, da qual ele era protetor.

Os fazendeiros adoravam Thor que ficou imortalizado como patrono da quinta-feira, na língua anglo-saxônica: “Thor´s day”, que resultou no “Thursday” pronunciado pelos ingleses.
Seus cabelos vermelhos e barba ruiva voavam nos céus, era a própria força da natureza, ás vezes invocada por meio do trovão, dos raios e das chuvaradas. Todos sabiam: quando surge uma tempestade é Thor que está por perto. Os raios eram faíscas que voavam quando o deus batia o martelo Miolnir contra as rochas celestiais.

Empolgado com sua própria pessoa, Thor nem enxergou o momento em que surge impetuosamente á sua frente, a serpente maligna, Jormungandr – o próprio diabo. Essa serpente Midgard representa o mal e é tão grande que envolve todo o planeta Terra.
- Ué será que estamos no final dos tempos? – pergunta Thor para Loki.
- Não! Nada disso! - responde tranqüilamente o astuto Loki. A serpente está apenas fazendo alguma maldadezinha nesta região.

Thor sabe que, segundo os escritos sagrados, no final dos tempos haverá um apocalipse, uma grande guerra travada entre o bem e o mal. Será a guerra definitiva, chamada Ragnarok, que destruirá a Terra, todos os planetas, todos os mundos, todos os deuses. Nesse dia, Thor chegará mais uma vez montado em sua carruagem de guerra, puxada pelos dois famosos bodes e tentará matar, finalmente, o demônio-serpente Jormungandr.

Mesmo não sabendo o final dos tempos, Thor não quer perder a chance de travar uma boa luta. Veste as luvas mágicas, feitas de ferro, para poder segurar o cabo branco do martelo Miolnir, fazedor de raios e faíscas. A luta seria grande então colocou o cinturão Megingiard, que dobrava já sua força descomunal.

Estala o Chicote, convocando os bodes mágicos, Tanngrisnir e Tanngnjóstr, para o grande evento Tanngrisnir significa “o que pouco mostra os dentes” e Tanngnjóstr significa “o que range os dentes”. Bufando contra os inimigos, os bodes investem, num espetáculo dantesco, contra o demônio. Thor agita os ventos, rebenta uma borrasca celestial, brame o martelo mágico, Miolnir, estilhaça faíscas por todos os lados, o céu escurece como noite. A luta é colossal e a carruagem ataca o demônio que se ergue, medonha, até os píncaros celestiais, depois desaba sobre a carruagem, levanta-se mais longe, lança fogo pela boca, transforma a terra num imenso deserto queimado. A luta prossegue durante o dia inteiro, sem dar a chance de Thor lançar o martelo mágico que sempre retorna às suas mãos depois de abater o inimigo. Miolnir nunca errou o alvo e nunca falhou, mas a serpente era muito esperta e não dava a chance de ser atingida. Afinal, é a grande inimiga dos próprios deuses!

Quando o combate estava no auge, eis que a imensa cobra-demônio sai escorregando por entre as nuvens dantescas, fugindo do combate, em meio a raios fulminantes e faíscas mortais. A luta terminou, ingloriamente.

Thor está triste, faminto, enfraquecido pelo ardor dos dois últimos dias, com combates mortais. Agora precisa comer e descansar, mas só enxerga desolação, terra e florestas queimadas, nenhuma alma viva. A incrível serpente arrastou-se pelo chão levando todas as almas vivas para a escuridão da morte. Então Loki sugere:
- Meu senhor, sei que sua fome é grande, mas ainda há comida sobrando para sua refeição. É só querer!

Perversamente, Loki apontava os majestosos bodes que ainda resfolegavam, depois da batalha.
Thor pensou, pensou. De fato queria apenas descanso e um bom caldeirão de comida.
O astuto Loki voltou a recomendar:
- Grande deus, faça um bom guisado com os bodes, embrulha os ossos dentro da pele de cada um. Amanhã cedo, seu martelo mágico, Miolnir, encostará nas peles e os bodes renascerão novamente, para um novo dia.

Foi assim que os bodes, Tanngrisnir e Tanngnjóstr, viraram guisado para o deus Thor. O grande deus era casado com Sif, a deusa das colheitas, que amava os frutos da terra e todos os animais, por isso, sabia que tinha que ressuscitar os dois bodes no dia seguinte, para não enfrentar a fúria da esposa. Ai dele se a esposa soubesse que os famosos bodes guerreiros haviam virado guisado!

O astuto Loki tentou aproveitar a chance e distrair o grande deus, fazendo-o esquecer dos bodes transformados em um monte de ossos. Tentou, tentou, mas Thor foi mais forte: nem bem nasceu o sol, Thor já encostava amorosamente o martelo Miolnir nos dois pacotes de ossos embrulhados com a pele, fazendo ressuscitar imediatamente os dois fantásticos bodes guerreiros. Thor havia vencido Loki, dessa vez. O carro estava pronto para continuar a jornada até o Valhala, tendo à frente os mais impressionantes bodes que o mundo já viu: Tanngrisnir e Tanngnjóstr.

Fonte: Revista O Berro- N° 103 - Julho 2007