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Exportações devem chegar a 640 mil toneladas
O mais novo parceiro é o Chile, que inicia compras ainda no primeiro semestre
Um aumento de até 10% nas exportações. 640 mil toneladas vendidas para mais de
duas dezenas de países.Crescimento nas vendas para Rússia, Hong Kon e China.
Conquista de novos mercados, como o Chile. E aumento das vendas internas.
Tanta notícia boa parece não cominar com uma realidade de indecisão dos russos
sobre liberação de granjas para importação, preços de grãos e insumos em alta e
embargo da compra de carne bovina pela União Européia, fatos que marcam os dois
primeiros meses deste ano. Mas é com este ânimo que os produtores de carne suína
do Brasil seguem trabalhando, de olho nas estimativas do departamento de
Agricultura dos Estados Unidos (USDA), que apontam para uma queda na oferta de
produção de 1,78% em 2008. O mesmo levantamento indica, também, uma queda
mundial de consumo, mas num nível baixo da produção, cravando 0,72%. Ainda
falando sobre a movimentação do setor, o departamento marca que as exportações
terão queda de 0,04%, mas a procura pela carne suína, as importações, aumentarão
1,17%.
A carne suína é a mais consumida em todo o mundo. A população planetária devorou
no ano passado algo em torno de 270 milhões de toneladas de carne em geral. Só a
suinocultura respondeu por quase 40% deste total. A China é disparado o maior
produtor, mas de 50 milhões de toneladas, quase metade da população mundial.
O Brasil é o quarto maior produtor e deve encerrar este ano com a marca de 38
milhões de cabeças ou 3,1 milhões de toneladas. A expectativa para consumo do
brasileiro, que também embala o ânimo dos suinocultores, segue o otimismo do
levantamento norte-americano. As famílias brasileiras podem provocar um aumento
de até 1,87%.
Mas é o mercado externo que vem pautando todas as notícias de impacto envolvendo
o setor “Não sou otimista, nem pessimista. Sou realista. A pesar de cotas e
coisas do gênero, o Brasil cresceu muito nesse setor e tem potencial para
crescer ainda mais. Logicamente, o Governo Federal tem que trabalhar com mais
atenção, mas temos ótimos exemplos de bons comportamentos, como é o caso de
Santa Catarina, que fez uma opção moderna e competente pelo investimento em
qualidade sanitária”, analisa Pedro de Camargo Neto, presidente da Associação
Brasileira da Indústria Produtora e Exportadora de Carnes Suína (ABIPECS). E ele
faz um prognóstico vigoroso de aumento das exportações, até 10%. Mas faz questão
de salientar que existem entrantes. “Os problemas que o país enfrenta com a
carne bovina atrapalham. Mas existe um movimento de negócios que segue, apesar
dos percalços. A União Européia não vem ao Brasil há dois anos por causa do gado
e a Rússia, apesar do anúncio no fim do embargo, é sempre um enigma. Mesmo
assim, Hong Kong deve comprar bem, o Chile é um parceiro novo quase certo e a
China precisa de carne. Parece inerte, mas os negócios vão sendo fechados. E vão
aumentar neste ano. De repente, dá para fechar em até 630, 640 mil toneladas”,
sustenta.
O Brasil vende para mais de dez países espalhados pela América, África, Europa,
Oriente Médio e Ásia em geral. Nossos suínos chegam a Rússia, Hong Kong,
Ucrânia, Cingapura, Argentina, Angola, Albânia, Moldávia, ao Uruguai, aos
Emirados Árabes Unidos e outros. São mais de 20 empresas exportadoras. 58% do
volume que vai para fora estão em forma de cortes, sendo os principais o pernil
(redondo, vl, sem osso, etc.), a paleta (com osso e desossada), lombo, carré,
filezinho, a barriga, (vários tipos: piano, comum etc.) e copa-lombo.
De todos os compradores, a Rússia é o maior parceiro e, como brincam todas as
lideranças do setor, o mais “estranho”. Em dezembro de 2005, temeroso com os
casos de febre aftosa que foram identificados em Mato Grosso do Sul e no Paraná,
o país declarou o embargo da importação de toda a carne produzida no Brasil. O
que significou, inicialmente, um choque para os suinocultores, que perderam um
parceiro importantíssimo. Estranhamente, a decisão das autoridades russas parece
não ter “convencido” os importadores daquele país. Já no primeiro semestre
seguinte à medida (decretada em 12 de dezembro de 2005), Santa Catarina e Rio
Grande do Sul, os dois estados maiores exportadores, vendiam mais carne suína
para empresas da Rússia do que no mesmo período do ano anterior, antes do
embargo.
No fim do ano passado, os russos anunciaram o fim da proibição de entrada da
carne suína brasileira. Mas basta olhar os levantamentos oficias para perceber
que em 2007 o país importou do Brasil nada menos que 279 mil toneladas. A
esmagadora maioria comprada do Rio Grande do Sul, Fato impossível de acontecer
depois do anúncio do cancelamento do embargo, veiculado apenas 3 meses antes de
acabar o ano. Esta é uma das questões principais que embalam quem espera por uma
boa performance das exportações neste ano.
Apesar da controvérsia, os especialistas consideram que a partir de abril,
quando os portos russos já estarão operando normalmente (depois do congelamento
das águas), o parceiro vai estar presente e firme no comércio com o Brasil. No
início do ano, quando a secretaria de Defesa Agropecuária do ministério da
Agricultura, Pecuária e abastecimento manteve reuniões com representantes
daquele país, o assunto dominante foi a carne bovina. Mas o próprio secretário,
Inácio Kroetz, reconheceu que a mudança rápida de planos é mais do que esperada
e, assim que a Rússia precisar de carne suína, vai manter contato, enviar lista
de frigoríficos para inspeção e iniciar comercialização. “Essa questão de
embargos e suspensão de importação está bastante ligada à uma mistura de
protecionismo puro, especulação em demasia e tentativa de manipulação do
mercado. Veja bem que as questões envolvendo sanidade e a proteção do consumidor
vão aumentar. É fato. Mas o importante é investirmos em qualidade, como fizemos
em Santa Catarina, não sermos dependentes de um só comprador, como já não somos
da Rússia, cuidarmos bem dos produtores e termos uma ação integrada entre
Governo Federal, Industria e Suinocultores”, analisa Wolmir de Souza, presidente
da Associação Catarinense de Criadores de Suínos.
Ele enfatiza que a carne suína acaba sendo prejudicada por uma avalanche de
noticias que envolvem, na prática, exclusivamente as questões sanitárias e de
rastreabilidade da Pecuária Bovina. “Falam em plantas aprovadas, plantas para
serem fiscalizadas etc. Mas não fica claro que não se trata de Suinocultura. Sem
falar de notícias sobre cotas, por exemplo. Como podemos acreditar na divulgação
de que a carne suína brasileira teria que dividir uma cota de menos de 200 mil
toneladas com vários países diante dos negócios fechados com eles em 2007, em
pleno ano de embargo?”, indaga Wolmir de Souza. O presidente da ACCS se refere à
notícias divulgadas em janeiro de que a Rússia teria fixado cotas para
importação de carnes em 2008 (suína, bovina, e frangos). Segundo os meios de
comunicação, eles comprariam 493.500 toneladas de carne suína.249.300 toneladas
da União Européia, 49.800 toneladas dos EUA e 193 mil toneladas de vários
países, onde o Brasil estaria incluído. “Não é a primeira vez que se fala em
cotas, Em 2004, aconteceu igual e só serviu para diminuir os preços e desmotivar
os produtores. Não há crise. O trabalho é árduo, mas o setor cresce, investe em
qualidade, vai exportar bem e tem boas notícias para dar”, anuncia.
É que novas parcerias comerciais motivam o estado que mais produz carne suína no
Brasil (previsão de 777 mil toneladas em 2008). Doze plantas industriais foram
visitadas por uma comitiva de negociadores chilenos e uma missão veterinária
daquele país deve habitar em breve as unidades processadoras que vão vender
carne suína ainda esse semestre. Negociadores japoneses também estiveram em
Santa Catarina (o estado foi reconhecido em 2006, pela Organização Internacional
de Saúde Animal, como zona livre de febre aftosa sem vacinação). O país seria um
parceiro importante já que neste ano deve importar 1,2 milhão de toneladas.
Outros negociadores fizeram contato com produtores e empresas como os chineses,
italianos e espanhóis, buscando informações e demonstrando interesse em
negociar. E novas missões já têm datas marcadas para visitas a partir de março.
“Precisamos das novas oportunidades, aumentar o número de países interessados em
nossa carne. As doenças estão controladas, temos bom status sanitário e vai
faltar carne suína no mundo em 2008. Vamos crescer ainda mais no cenário externo
se trabalharmos juntos e enfrentarmos os problemas com transparência,
esclarecimento e democracia. E, acima de tudo, se dermos boas condições ao
suinocultor. Afinal o produtor é quem coloca o animal na plataforma de abate,
sendo ou não o dono do plantel”, finaliza Wolmir de Souza.
O presidente da ACCS salienta a questão do produtor num estado em que 30% deles
são independentes, estando fora de qualquer integração. Ele destaca algumas
características próprias do estado que mais produz. “Aqui, a idade média do
suinocultor é 48 anos, mais da metade das propriedades não tem sucessores e os
jovens não gostam da atividade. Precisamos olhar para este problema com todo
carinho pois ao cuidar bem do produtor, seja integrado ou independente,estamos
cuidando bem dele, do município aonde trabalha, do pagamento dos impostos para o
estado etc. Exportar é importantíssimo, mas não vamos esquecer que 80% da
produção é vendida aqui dentro, no Brasil”, relembra.
E os bons resultados esperados animam também o setor no Rio Grande do Sul,
estado que mais exporta para a Rússia nos últimos anos, mesmo com o embargo que
terminou no ano passado (possuem 13 plantas autorizadas a vender carne para
aquele país. A outra planta autorizada fica em Mato Grosso). “Podemos alcançar
até 640 mil toneladas em 2008, o que é um bom crescimento. Mas não podemos nos
preocupar apenas com o volume exportado. Os preços precisam ser compensatórios
para toda a cadeia e nossas principais preocupações, hoje são o câmbio e o custo
de produção. O dólar num patamar muito baixo e os preços crescentes de ração e
outros insumos podem tirar o fôlego do aumento previsto nas vendas externas”,
analisa Rogério Kerber, diretor do Sindicato da Indústria de Produtos Suínos (SIPS).
Ele também salienta que a previsão de queda na oferta de suínos no mundo pode
ser compensada por excesso de oferta dos americanos se a economia dos EUA entrar
em forte recessão. Um exemplo destacado foi o anúncio pela gigante Smithfield,
no fim de fevereiro, de diminuir a produção em 1 milhão de cabeças ao ano por
causa da escala dos preços no varejo. “Se o consumo cair por lá vai afetar o
preço do suíno em escala global. Sem falar que o México também está querendo
diminuir produção. São fatores que influenciam a suinocultura de maneira geral”,
explica.
De qualquer maneira, o executivo salienta outras frentes que podem ser
enfrentadas pelo Brasil no embate comercial das exportações ao longo dos
próximos anos. Todas no campo da sanidade. “Precisamos encaminhar acordos
sanitários com países como China (que a medio prazo é mercado potencial),
Coréia, Japão, México e Estados Unidos. Está certo que temos dificuldades já que
boa parte destes países é resistente ao conceito aplicado no Brasil de
regionalização do controle da febre aftosa. Mas não podemos desistir. Temos
várias ações que dão resultados certos, mesmo que demorados. Participação em
eventos internacionais, contatos freqüentes, receber visitas etc. É um trabalho
contínuo”, alerta.
E Rogério reforça que é o profissionalismo imprimindo em toda a cadeia produtiva
que faz do Brasil um país promissor no mercado externo apesar da concorrência
acirrada e das crescentes exigências ambientais e sanitárias. “É a razão do
sucesso brasileiro apesar do suíno pagar o preço de ser suscetível à febre
aftosa”, lamenta.
Fonte: Revista Pork World - N° 43 -
Mar/Abr 2008
