:: Notícias - Doenças Infecciosas: como controlar

 

Um programa de prevenção de doenças infecciosas depende de cuidados na compra de animais, no controle de doenças e de práticas que envolvem a vacinação do rebanho

“As doenças infecciosas crônicas ou subclínicas representam os maiores prejuízos em um rebanho leiteiro”. A afirmação é da médica veterinária Sandra Godden, da Universidade de Minnesota – EUA, que considera que tais perdas são mais sutis, embora não menos reais, afetando a saúde, a produtividade e a lucratividade em um período bem maior. Segundo ela, o programa de controle de doenças infecciosas, que chama de biosseguridade, vem ganhando cada vez maior dimensão na pecuária leiteira de países especializados na atividade. Nem todas as doenças conhecidas podem ser incluídas em um programa de biosseguridade, assim como não se pode criar um programa que seja apropriado para todos os rebanhos. Entre as principais doenças, costuma destacar: mastite (Staph. aureus e Strep. Agalactiae), vírus da diarréia viral bovina (BVDV), doença de Johne (paratuberculose), salmonelose, mycoplasma bovis, leptospirose, neosporose, leucose (BLV), vírus da IBR, rotavírus e coronavírus.

Após a realização da análise de risco para identificação dos principais patógenos que podem ser motivo de preocupação, deve-se desenvolver um plano para controle. Sandra Godden costuma dizer que as doenças infecciosas do gado bovino resultam da interação entre animal, ambiente e agente infeccioso. “Para criar um programa de controle eficiente, o produtor deve considerar quais podem ser as maneiras mais factíveis em termos práticos e de custos para, então, manipular um ou os três componentes”, adverte. Sobre a análise de risco, considera que veterinários e produtores devem fazer um plano para identificar quais as doenças com maiores chances de ameaçar o programa.  Nesse sentido, é preciso fazer uma avaliação dos principais modos de transmissão e controle de patógenos,  adotando as mudanças necessárias para implementação de um programa de controle eficiente por etapas. Uma vez que o manejo dessas áreas esteja  como desejado, o programa pode ser expandido, se necessário, ou, então, deve-se planejar a implementação de um programa de controle preventivo. Qualquer que seja o caminho escolhido, é recomendável um programa de monitoramento para avaliar a efetividade do plano e identificar doenças novas ou emergentes. “ Para isso, é necessário um diagnóstico preciso das doenças e um registro consistente das ocorrências”, diz ela, explicando que, num sistema ideal, qualquer animal que morre na fazenda deve ser submetido à necropsia para confirmação de causa mortis.

 “ Ideal também seria que todo rebanho fosse ‘fechado’, a melhor estratégia para se evitar doenças, infecciosas ou não”, completa.

‘No entanto, como tais preceitos nem sempre são factíveis com a dinâmica do sistema de produção leiteira, os produtores devem entender que origem ou fontes desconhecidas equivalem ao risco de introdução de doenças infecciosas, também desconhecido. Pesquisadores enfatizam que sempre se deve considerar o pior dos cenários em termos de doenças infecciosas, ao se adquirir animais de origem desconhecida. Com tal risco, o melhor é se munir de algumas práticas ao introduzir novos animais no rebanho. 

GARANTIA PELO PROGRAMA DE VACINAÇÃO

Uma contribuição para garantir maior segurança na compra e venda de animais pode estar nas informações sobre o programa de vacinação adotado no momento da operação, o estado geral de saúde do rebanho e o histórico de doenças específicas. Tais informações podem ser acrescidas de dados sobre contagem de células somáticas e de bactérias nos tanques, registros de mastite que já tenham ocorrido, resultados de culturas e exames e apalpação do úbere e dos tetos de cada vaca. “ Se possível, deve-se sempre comprar novilhas em vez de vacas mais maduras. Como elas ainda não começaram a produzir, é mais fácil fazer a quarentena, e existe menor risco de mastite contagiosa”, explica a veterinária norte-americana. No caso de a opção se confirmar mesmo por novilha, ela sugere que é melhor ainda se ela estiver vazia, pois assim poderá ser testada e vacinada adequadamente antes da cobertura. Completando, diz que com o animal jovem é mais fácil conhecer seu status de biosseguridade, vacinação e programa de testes. O produtor deve contar com a ajuda de um veterinário na decisão do que deve ou não examinar no gado comprado, já que não há consenso sobre quais doenças testar. Como os resultados dos exames levam de três a quatro semanas para ficarem prontos, as amostras devem ser coletadas e enviadas ao laboratório assim que o animal chegar à área de quarentena. Sugestão: se possível, deve-se realizar esses exames enquanto os animais adquiridos ainda estiverem na propriedade do vendedor.

Nesta linha de prevenção, Godden sugere que os animais sejam transportados em veículo do comprador, que deve ser limpo antes e depois do transporte do gado adquirido. “Animais recém-chegados devem ser alojados em uma área específica para quarentena por 30 dias, antes de entrarem em contato com os animais residentes. Sendo assim, não repartirão o mesmo espaço aéreo, bebedouros e cochos”, orienta, destacando que o período de quarentena serve para proteger tanto o gado antigo quanto o novo. Com o agrupamento definido, dá-se início à vacinação, integrando os novos animais ao programa da fazenda. Ao mesmo tempo, se coleta as amostras necessárias para realizar os exames para o status de doenças infecciosas. “O gado recém-adquirido deve passar por um pedilúvio adequado assim que chegar à propriedade, e seus membros devem ser examinados e casqueados. No plano de manejo, deve-se observar as atitudes, a ingestão de matéria seca e a temperatura dos novos animais. O gado novo deve ser sempre ordenado por último, como medida preventiva contra a disseminação de mastite contagiosa”. Sandra Godden destaca que aves, roedores ou cães podem contribuir para a transmissão de doenças, como a salmonela e neospora. “É preciso restringir a entrada dessas espécies em áreas de armazenagem ou mistura de alimentos ou de alimentação. O uso de equipamento contaminado pode contribuir para a transmissão doenças. Ao mesmo tempo, deve-se evitar o trânsito de pessoas, com roupas ou calçados sujos, e veículos não previamente desinfetados”, alerta.

VACINAÇÃO: EFICIÊNCIA DEPENDE DE PRÁTICAS

Na amplitude da estratégia de controlar doenças infecciosas cabem também ações que minimizem as já existentes. O primeiro passo é identificar e depois tratar ou remover os animais infectados, que podem atuar como reservatórios ou fontes de infecção para os demais animais de rebanho. Uma vez que o animal tenha sido infectado ou seja portador, deve-se decidir o que fazer: tratar, isolar ou descartar. A decisão tem de levar em consideração a doença identificada e o fluxo de caixa da propriedade, o que nem sempre recomenda um descarte imediato, já que, em alguns casos, os animais podem ser produtivos ainda por algum tempo. “Embora a vacinação seja um componente essencial de qualquer bom programa de biosseguridade, ela constitui apenas um suplemento do programa e não substitui outros procedimentos para o controle de doenças”, cita ela. Destaca que para se alcançar uma imunização adequada é recomendável fazer uma seleção cuidadosa da vacina mais apropriada, manusear e usar o produto conforme as instruções do rótulo e vacinar os animais que tenham capacidade de gerar uma resposta imune. Algumas práticas podem reduzir a eficiência de um programa de vacinação, tais como:

  1. condições inadequadas de armazenagem das vacinas;

  2. mistura de duas vacinas na mesma seringa antes da administração;

  3. administração por via ou dose inadequados;

  4. inativação da vacina por resíduos de desinfetantes usados para limpar as seringas;

  5. vacinação de animais jovens demais para criarem uma resposta;

  6. vacinação de animais doentes, poucos desenvolvidos ou estressados;

  7. falha na administração de um reforço ou um intervalo muito prolongado.

Além dessas práticas, a professora norte-americana diz que um bom manejo nutricional é essencial para garantir a saúde e prevenir que os animais desenvolvam uma resposta imune adequada. A dieta deve ser composta de suprimentos de energia, proteína, fibra e dos requerimentos de água e outros nutrientes. “A imunidade geral também pode ser melhorada através da minimização dos vários fatores que provocam estresse nos animais”, acrescenta.

É importante frisar que nem todos os animais expostos a um agente infeccioso ficam doentes. Uma exposição suficiente para causar a doença, chamada de “contato efetivo”, depende da duração do contato e do número de microorganismos transferidos. Também depende, até certo ponto, da virulência do agente e da função imunológica do animal. Para que o contato efetivo possa ser reduzido, se recomenda, como já citado, a separação física dos animais recém-chagados, a minimização das chances de infecção, através, por exemplo, da prevenção da contaminação fecal das áreas de cocho e bebedouros.

Sandra Godden é médica veterinária e professora da Universidade de Minnesota-EUA, e esteve no Brasil em março último ministrando palestra sobre o tema abordado neste artigo durante o Curso Novos Enfoques na Produção e Reprodução de Bovinos, evento promovido pela Conapec  Jr./Unesp-Botucatu. 

Fonte: Revista Balde Branco - Julho de 2008 - N° 525