
:: O fim do corredor da morte
Para se adaptar à lei que proíbe
execuções, o centro de controle de zoonoses passa a recolher menos cães
e gatos nas ruas
A aprovação da lei estadual que
proíbe o sacrifício de cães e gatos em canis públicos desencadeou uma
crise no centro de controle de zoonoses (CCZ). Vinculado à Secretaria
Municipal de Saúde, o órgão é o responsável pelo recolhimento de animais
abandonados nas ruas da cidade. Em vigor desde último dia 17, a nova
legislação, de autoria do deputado Feliciano Filho (PV), permite
eutanásia apenas em casos de doenças terminais ou infecto-contagiosas
incuráveis e graves. Elogiada por organizações de defesa dos bichos, a
medida obrigou o CCZ a acolher menos cães e gatos. A orientação atual é
aceitar apenas aqueles que oferecem risco à saúde pública. Nos três
primeiros meses do ano, a média de cães capturados foi de 657. O número
caiu para 272 em abril. Mais de 80% dos bichos que cruzaram os portões
do canil localizado em Santana em 2008 acabaram mortos com injeção letal
– o prazo máximo para quem quiser reclamar seu animal, ainda que
estivesse sadio, era de três dias. Apenas os mais novos e dóceis tinham
a chance de aguardar mais tempo por um dono.
“O poder público precisa criar
espaços para recuperar e expor os animais, promovendo a adoção de
todos”, afirma Vanice Orlandi, presidente da União Internacional
Protetora dos Animais (Uipa), que mantém um abrigo com 1500 vagas no
Canindé. “No CCZ não há nada disso. Só lugar para matar”. A maioria dos
canis e gatis do CCZ, que comportam 510 cães e gatos, é fechada e não
tem iluminação natural. “Falta de tudo por lá, inclusive vacinas e
ração”, diz Ângela Caruso, presidente do Quintal de São Francisco, ONG
que abriga 370 animais no bairro de Parelheiros. “Chegamos a ajudar
fornecendo insumos quando a situação se agrava”. Em entrevista concedida
por e-mail, Inês Suarez Romano, coordenadora da Vigilância em Saúde da
cidade de São Paulo, rebateu as acusações. Segundo ela, o CCZ não sofre
com a falta de vacina ou ração. Sobre a estrutura, reconhece que o lugar
foi “construído originalmente para curta permanência dos animais
recolhidos”, mas que uma possível reforma está sendo estudada.
A polêmica sobre a morte e a
captura de animais abandonados já fez uma vítima. Na terça-feira
passada, a então diretora do CCZ, a veterinária Adriana Lopes Vieira,
foi afastada do cargo. Em seu lugar assumiu o também veterinário Marco
Antonio Vigilato, funcionário de carreira da Secretaria de Saúde.
“Adriana era defensora da lei atual e estava disposta a adaptar o CCZ à
nova realidade”, afirma Vanice Orlandi, da Uipa. “Apesar das limitações
do centro, ela brigava para mudar esse cenário cruel”, diz Luiz Scalea,
gerente administrativo da Associação de Proteção dos Animais São
Francisco de Assis. Para o deputado Feliciano Filho, optar pelo fim do
extermínio é também uma questão econômica. “Dá captura até a morte, o
governo gasta 130 reais por animal”, conta “Castrar é a solução mais
eficaz para conter o aumento desenfreado dos bichos de rua e custa
apenas 30 reais por operação.”
Fabio Brisolla
Fonte: Veja SP - 07 de maio de 2008
